Mulheres nas Ciências Sociais e a transformação do conceito de Desenvolvimento no Brasil

O conceito de desenvolvimento no Brasil foi além do crescimento econômico e passou a incorporar justiça social, sustentabilidade e direitos territoriais. Essa transformação foi impulsionada pela atuação de mulheres nas ciências sociais, que integraram gênero, raça e território ao debate público. O texto apresenta essa trajetória histórica e mostra como essas contribuições redefiniram o significado de desenvolvimento no país. Leia (...)

Marina Federhen

3/9/20263 min ler

Historicamente, o conceito de desenvolvimento socioeconômico apresentava uma visão estritamente quantitativa, focada no crescimento do PIB e na industrialização, onde o território era visto como recurso, as populações tradicionais como entraves e as desigualdades como efeitos colaterais do progresso.

Essa perspectiva passou a se transformar em uma abordagem multidimensional que integra crescimento econômico, melhoria da qualidade de vida, equidade social e sustentabilidade ambiental quando novas vozes passaram a ocupar as ciências sociais, especialmente mulheres. Ao ingressarem e se consolidarem nesse campo, elas não apenas ampliaram a diversidade acadêmica, mas também alteraram as perguntas fundamentais sobre o que significa desenvolver um país.

Nos anos 1960 e 1970, intelectuais como Heleieth Saffioti introduziram uma crítica fundamental às desigualdades estruturais mantidas pelo crescimento econômico, apontando que a exploração e a desigualdade de gênero eram parte do próprio modelo econômico instalado no país. Ao correlacionar capitalismo e patriarcado, Saffioti demonstrou que o desenvolvimento se sustentava também sobre o trabalho invisível das mulheres.

Já nos anos 1970 e 1980, o debate amplia-se através da incorporação da dimensão racial e territorial devido a urbanização acelerada, que resultou em periferias negras, precarizadas e historicamente excluídas de acesso à direitos fundamentais. Neste contexto, Lélia Gonzalez foi peça central nas discussões sobre a desigualdade brasileira, desconfigurando a ideia de que o desenvolvimento beneficiaria a todos de forma homogênea e contribuindo para a incorporação de desigualdades históricas e estruturais ao conceito de desenvolvimento socioeconômico.

A Constituição de 1988 representa um marco na transformação do conceito de desenvolvimento no Brasil. Nesse momento, antropólogas como Manuela Carneiro da Cunha ajudaram a consolidar o reconhecimento dos direitos originários dos povos indígenas às suas terras, alterando profundamente a ideia de que territórios indígenas seriam espaços a serem integrados ao projeto nacional de crescimento e fazendo com que o desenvolvimento, por si só, deixasse de justificar a expropriação, passando a ser condicionado pelos direitos humanos e territoriais.

A partir dos anos 1990, a questão ambiental ganha espaço na mídia e nos debates políticos. Lideranças como Marina Silva trouxeram ao debate público a ideia de que o crescimento econômico não pode ocorrer à custa da devastação ambiental. Neste contexto, a Amazônia deixou de ser vista apenas como fronteira de expansão produtiva e passou a ser entendida como território estratégico para a sustentabilidade global e para a sobrevivência de populações tradicionais. Dessa forma, o desenvolvimento passou a incluir limites ecológicos e responsabilidade intergeracional, considerando as futuras gerações.

Nos anos 2000, o feminismo negro e a produção intelectual de mulheres como Sueli Carneiro aprofundaram a crítica às desigualdades estruturais, revelando que pobreza, violência e exclusão têm cor, gênero e território e que as políticas públicas que ignoram essas dimensões tendem a reproduzir desigualdades.

Mais recentemente, lideranças indígenas como Sônia Guajajara passaram a questionar a existência de um único modelo de desenvolvimento, mostrando que a defesa dos territórios indígenas não é apenas defesa ambiental, mas também a expressão de outros modos de vida, economias e formas de organização social.

Hoje, falar em desenvolvimento socioeconômico no Brasil implica discutir justiça climática, direitos territoriais, desigualdade racial, equidade de gênero e sustentabilidade. Essa ampliação conceitual foi construída a partir de discussões intelectuais, políticas e sociais em que as mulheres foram protagonistas.

Permeando as ciências sociais ao longo das décadas, elas transformaram não apenas o debate acadêmico, mas também o horizonte ético do país, redefinindo o que significa, afinal, desenvolver.